terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Fim de Sísifo

Às vezes, quando as palavras faltavam, o silêncio podia ser usado como desculpa. Porém nem sempre silenciar era a melhor forma, pois quando ficava em silêncio, sua voz ecoava dentro de sua cabeça perturbando suas vontades e sonhos. Aprendera que devia falar o que pensava, e o fato de se machucar era apenas uma questão de ponto de vista, pois sempre teria uma pequena ferida a ser curada. Uma ferida, que mesmo sem ser percebida insistiria em doer, incomodar sem resolver cicatrizar. Quando se encontraram, seus pensamentos fugiram imediatamente de sua cabeça, como balões de gás hélio que sobem ao céu, no imediato momento que são libertados das mão de uma criança. O silêncio novamente era o rei da ocasião, e dentro do castelo do rei se abrigavam vários seres que podiam a qualquer momento serem expulso, tendo em vista que o espaço dentro das muralhas de dentes se tornava cada vez menos. De alguma forma os pensamentos voltavam lentamente a serem respirados, mas o silêncio, ainda não havia sido quebrado. Os olhares, as mãos, os corpos, as bocas, os toques, os silêncios. Os lábios cerravam, porque eram os únicos que tentavam parar o impulso, sabiam que não seriam fortes o suficiente, porém o pouco que tempo que pudessem impedir já serviam ao menos como uma esperança prostituída. Já serrados e a poucos segundos de abrirem, cansaram e cederam. O ar decidido que sai do pulmão, passava pelas traquéias, encontrava com as cordas vocais e por fim formavam os fonemas na boca. Responsável pela quebra total silêncio? Entretanto sua força não fora suficiente para ser considerada um grito de libertação. Os olhos perceberam que nada havia acontecido, por isso, todo o corpo se reorganizou para refazer o esforço semelhante ao trabalho de Sísifo. As sílabas subiam pela sua garganta como pedras, mas ao chegarem a boca fora expulsas e dessa vez puderam ser ouvidas em bom som. Eu ess-stuo a-paixo-nado p-o-or voc-ceeê.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Você me ouve?

Gosto de borboletas. Acho que é a melhor forma de me definir. Pensei em me denominar de "O colecionador de borboletas", porém esse termo não é apropriado para mim. Às vezes, passo muito tempo olham para elas, me sinto perdido,acho que as cores de suas assas servem exatamente para isso. Não sei como ,mesmo cansado, ainda gosto de passar as tarde olhando as borboletas voarem pelo meu jardim. Existem certos tipos de rosas que fazem com que elas pousem com maior freqüência, e são exatamente essas que cultivo no jardim. Já achei, várias vezes,que havia encontrado a borboleta mais bonita da minha vida, porém esta não valorizava muito a minha atenção, e dessa forma me deixava sozinho no jardins . Com freqüência, perco-me procurando as borboletas que mais me agradem , porém, acho que quanto menos procuro mais borboletas bonitas me aparacem, talvez sejam elas que me escolham. Atualmente, encontrei uma que a pouco ainda era lagarta. Ela, mesmo que ainda não queira ficar muito tempo em minha companhia, me permitindo observa-lá. Os poucos minutos que a seguro em minhas mão, já são bastante importantes. Ainda não sei como fazer para poder prende-lá, e talvez nem seja a melhor forma de fazer com que ela continue no meu jardim, pois, as vezes, a liberdade de ir e vim é mais forte que uma prisão. Ela talvez não saiba,mas suas asas, mesmo que novas, prenderam a minha atenção. Sei que posso perde-lá a qualquer momento, mas o pouco tempo que pude apreciar suas cores e asas já me fizeram pensar em uma vida de cores que antes não pude visitar. É no meu jardim que a espero todos os dias dos últimos tempo, e nos dias que ela resolve não aparecer, finjo que esse dia não existiu, e no dia seguinte saio a sua procura.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Ao lado

Ser parte de sua vida, mesmo
que os outros não saibam,
não me impede de estar.

Poder de observar ao longe
e ter sempre perto,
é parte do nosso segredo.

Não precisão saber,
pois seus crivos são ínfimos
em relação ao que vivemos.

Não vão ser espaços limitados
que irão limitar minha relação.

Perto estou.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Agora também o cisne morre

O acordar começa com um: estou aqui e agora? O Acordar realmente me doe, aos poucos vou tomando conta de que realmente estou aqui. Nunca fui muito feliz ao acordar, não sou daqueles que pulam da cama, e dizem bom dia para o novo renascer do sol. Diferente dele, pois todos os dias acordava já com uma felicidade, às vezes chegando a me dar vontade de lhe meter uma bofetada na cara, pois só os tolos não percebem o verdadeiro sentido do acordar. Esse ato tão cotidiano devia nos lembrar quase que obrigatoriamente de que o hoje é um dia depois do ontem, um ano depois do ano passado e que mais cedo ou mais tarde ela vem nos visitar. Normalmente levo muito tempo para me tornar eu, tempo para me adaptar ao que esperam que eu seja. Sei muito bem como devo me portar, logo que me levanto, vou ao banheiro e diariamente passo na minha face três lâminas bastante afiadas, depois uso de uns fios presos para limpar meus dentes, me banho, uso o sanitário durante umas duas ou três paginas e vou levemente montando esse papel que devo desempenhar. Ele quando acordava, não precisa mais do que de cinco minutos, já estava pronto, não sei como ele tinha tanta certeza de se, mesmo com a pouca idade. O odeio sair de casa, principalmente depois que ela passou e o levou. Só saio de casa por basicamente três motivos, o primeiro deles são as compras, até porque ainda me alimento como todos os outros, o segundo o trabalho, esse só é motivo por haver necessidade das comprar, o último, é apenas uma hipótese, pois ainda não foi necessário. Certa vez, ele me disse que éramos invisíveis, e que toda minoria era invisível. Naquele momento concordei, e até hoje concordo em partes, mas quando me pego pensando o que é maiorias, me vejo em um conjunto de minorias articuladas, que tentam encontrar um ponto de congruência, mesmo que hipotética e utópica, e dessa forma se sentirem mais confortáveis enquanto humanos. Mas o pensar não me faz ter mais estímulos para querer me levantar. Ele era livre de pensar, parecia que a boca era grudada no cérebro, pois nada que passava por ela tinha um mínimo de logicismos anterior, e talvez por isso acordasse de bom humor. Atualmente estou ficando cada vez menos disposto a montar o papel, por isso costumo desmarcar eventos agendados há meses, com desculpas cada vez mais mentirosas, chegando ao ponto de em algumas ocasiões falar a mesmas coisas duas vezes. Não é só o acordar que estar me incomodando, o dormir também começa a me deixar chateado, pois começo a desconfiar de sua aliança de sangue com o acordar e dessa forma começo a ter amizade apenas com as tardes. Espero que essas não me decepcionem. Enquanto ela não chega para me conduzir a ele, vou acordando e toda vez começo o dia me perguntado: estou aqui e agora?

domingo, 31 de outubro de 2010

Antes que Morfeu

Olhava atentamente as nuvens, como se elas fossem as mensageiras de suas vontades. Era engraçado como elas passavam lentamente sobre sua cabeça, podia quase ter a fiel certeza que o tempo havia parado. Esperava, como nunca, que os dias passagem, porém eles teimavam em ficar estáticos. A sexta preguiçosamente cedeu ao sábado, esse que por sua vez curtiu cada segundo, até dar a possibilidade do domingo chegar. Os dias que haviam sido amigos outrora, agora eram seus piores inimigos.

As nuvens que passavam por sobre sua cabeça, tinham as formas que o cérebro queria, sabia disso, porém podia jurar que as nuvens se aliaram ao dias para provocá-lo, pois elas insistiam em mostrar aquele sorriso, emoldurado pelos lábios largos e vermelho que já quase uma semana só ouvia a voz, mas a beleza real ficava restrita a vontade das nuvens. As nuvens se dissolviam e se remontavam sempre formando a mesma imagem, e quando raramente mudavam, era para mostrar outras partes que também lhe remetiam a mesma pessoa.

O cigarro, fiel companheiro,depois de vários meses engavetado, voltava a passear entre seus dedos . Sabia pouco de química, mas o pouco que sabia, era o necessário para ter a certeza que as substancias tóxicas do cigarro podiam lhe proporcionar um relaxamento, e valia ariscar um pouco de sua saúde.

O calor da tarde, como de costume era incomodo, porém a simples vontade de olhar as nuvens, e a brisa que a praia lhe trazia, o deixou completamente despercebido. O céu azul começara lentamente a ficar laranja, a tarde estava chegando ao fim, o que por um lado lhe confortava, pois era sinal de que a segunda estava chegando, por outro lado, as nuvens a noire se confundem com o céu azul escuro, e dessa forma lhe roubam as imagens. Antes que Morfeu se tornasse aliado dos dias, deixou o cigarro de lado, pegou a câmera na bolsa, e como um leve clique, conseguiu ter o sorriso por mais algumas horas, até que pudesse ter o de verdade.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

La musique, voitures, musique

Já havia se decidido, o tempo de repensar já havia passado e a única coisa que mudaria o destino seria uma escolha divina, uma intervenção direta e não essas crendices bobas, que as pessoas costumeiramente fazem. Entrou, acertou o banco, os espelhos e até a própria cara. Sentado, sentia como se tivesse todo o poder do mundo, o poder que outrora não sentia. Olhou cuidadosamente cada detalhe, passou e repassou o plano na cabeça, pois assim firmaria as idéias no inconsciente e mesmo que o consciente fizesse a burrice de desobedecer já estava tudo gravado. Ligou o carro, pisou na embreagem, pisou no acelerador, foi trocando o peso entre os pés e pronto já estava a caminho. A musica, não sabia falar Frances a não ser uma duas ou três palavras, que aprendera com uma musica. “Quelqu'un Ma Dit”, não sabia pronunciar direito, porém o significado era algo como “Alguém me disse”, talvez essa música fosse interessante de ouvir. O acelerado estava a mais de cem por hora, quando o carro chega a tal velocidade é notório como o motorista deixa de ser um guia e passa a ser um homem que transita a linha tênue da vida e da morte, como uma criança que brinca no parque com a presa de curtir o máximo possível do dia. Quanto mais o pé entreva no acelerador, mais a vontade de voar de desintegrar no ar, como um olho de leão se desfaz com o vento. O vento, nunca tinha sido tão amigos, e cúmplice de pensamentos, talvez o vento se tornasse o ladrão de suas idéias, pois com o rosto ali parado, a cabeça se tornava cada vez mais vazia, assim como um saco de ar. “On me dit que nos vies ne valent pas grand-chose”, mas uma frase da música, porém essa não tinha decorado, apenas havia anotado no caderno, mesmo sem saber ao certo o significado, talvez fosse a sonoridade que havia marcado. Algo estranho estava acontecendo, ao invés do carro aumentar sua velocidade o que é o mais comum de ocorrer quando se pisa o mais fundo no acelerado, ele estava parando. Oitenta, cinqüenta, trinta, dez, cada ver menos, parou. Não acreditava em mudanças divinas, porém foi ali onde desabou em lagrimas, chorou o que havia ficado engasgado há um ano, dois, a vida toda. Chorar com choro de alma, tão fundo que não há forma de controlar. Ali parado só o que fazia era chorar, a mão trêmula, pegou o telefone, ligou para a seguradora, com a voz não muito forte, falou o endereço. Ali sem força para se mover resolveu ficar até, até, não sabia, porém iria se aceitar sentir.

sábado, 28 de agosto de 2010

Duas vezes: para ensaio, para valer.

Hoje eu vim aqui só para falar disso, não é comum no dia do aniversário alguém falar sobre a morte, porém normalmente o comum não me aprecia. Hoje ainda não é amanha, por isso ainda posso falar com menos experiência que amanha terei. Depois de ver na loja ao lado um caixão pude notar como nada melhor do que o aniversário para falar da morte. Não sei por que, mas sempre gostei das pessoas que conseguem nascer e morrer no mesmo dia, me parece uma fechada de ciclo completo e sem erro, onde essa pessoa respeita naturalmente o ciclo. A figura de um caixão foi me apresentada hoje, não que eu não a conhecesse, mas por que, parar para notá-la, nunca fiz. Algumas bobagens merecem ser faladas. A vida, ela vale menos que um caixão! A minha ao menos não sei afirmar, porém a vida de um modo geral deve valer. Aquele caixão me incomodou tanto, me fez refletir mais que as leituras de outrora, em Nietzsche, Jean-Paul Sartre. A figura o símbolo, a imagem foi o que me marcou. Saber que estarei lá dentro em mais ou menos dias, não me deixa feliz nem triste, mas em uma curiosidade meio que macabra e louca, porém afirmo, não tenho pressa em descobrir. Tenho uma metáfora estranha, porém engraçada para definir o que pensei. A vela após ter sido acendida, não importa o dispêndio de energia, em mais dia ou menos dia ela irar apagar. Odeio quando as coisas rimam, mas foi involuntário. O caixão, a loja, a vida, tudo isso me impressiona, sem falar no bar. Sei que do bar ainda não falei porem deixarei para outrora, hoje só quero falar da vida, do caixão e da loja, e acho que ainda é muito para poucas palavras que pretendo usar. Merda! Novamente rimou. Não sei se serei compreendido, e nem tenho essa necessita no momento, já tive em outras horas e com certeza terei no futuro, mas nesse momento eu só quero é falar, e me desculpe você que esta ouvindo, se não tiver entendendo, não se preocupe o problema esta mesmo em mim, e não em você. Não sei se consegui deixar claro o suficiente o porquê de o caixão ter me feito penar, mas se não consegui, na próxima vez que passarem na frente de uma loja de caixões, pare apenas um momento e fiquei olhando mesmo que o incomodo seja maior, apenas pare e fique olhando, talvez assim, não através de palavras e sim de ações eu consiga mostrar como o caixão me fez pensar. Fora que novamente rimou, só quero deixar mais uma dica, quando escolher parar em uma loja de caixões, para olhar, não vá em qualquer dia, espere a véspera do aniversário, talvez seja melhor, mas se o aniversário ainda estiver muito longe não perca tempo vá mesmo assim. Acho que a frase que li hoje, será um bom final. “A vida devia ser vivida duas vezes, uma para ensaio e outra para valer. Era algo assim, ou talvez não.