Ao passarem pela face, deixam o cheiro da vontade
Bobo, quem não percebe que elas são verdadeiras.
tirando tudo de lá
Não adiantava fechar os olhos e fingir que o sono iria chegar nos próximos dois minutos, ou no máximo três, como costumeiramente ocorria. Desde que se entendia por gente, o sono era super pesado e rapidamente vinha, porém no tempo presente, o costumeiro seria descartado. Olhava para cima, para um lado, para o outro, virava de ponta cabeça, de cabeça à ponta. Travesseiro no meio das pernas, travesseiro na cabeça, dois travesseiros, travesseiros no chão. Lençol na cabeça, lençol nos olhos, calor, frio, chão. O incomodo interior, não se limitava a ficar só no interior, mas se propagava. Será que no amanhã, quando a noite já fosse parte do ontem, e o futuro já estivesse, ao vivo e a cores, iria se sentir melhor? Às vezes, pensava que havia feito o melhor, e durante dois ou três minutos fechava os olhos, tendo a certeza que iria conseguir cai no sono, porém bastava uma leve brisa de duvida, e pronto, o furacão estava instaurado, e seria necessário mais vinte ou trinta minutos, para novamente se enganar e, dessa forma, conseguir mais um tempo de certeza. Pegou o telefone, olhou o horário. Já passava dois minutos das três da manha. Não adiantava nem ligar, pois o horário já era muito avançado. E mesmo assim o que iria falar? Tudo havia ficado combina. Não havia mais espaços para duvidas, nem desfeitos. Quem sabe em outro tempo, em um tempo em que a delicadeza já tivesse se instaurado novamente. Mas no tempo presente, o melhor era recolher todo o sentimento.
Odiava leite quente, mas como as pessoas falavam que era bom para insônia, resolveu fazer uma xícara, pois sabia que o único problema que poderia resolver naquela noite era a insônia. Foi até a cozinha, pegou o leite na geladeira e colocou para ferver. Como uma forma de esvaziamento do pensar, ficou olhando atentamente o leite. O branco. Depois de uns dois ou três minutos, o leite começou a borbulhar. Pegou a xícara e colocou o leite ainda fervendo dentro. Voltando ao quarto sentou-se na cama. O leite já estava morno, talvez fosse nessa temperatura que ele ajudasse o sono a chegar mais rápido. Bebeu, quase queimando a língua, mas bebeu. Deitou-se. Olhava para cima, para um lado, para o outro, virava de ponta cabeça, de cabeça a ponta. Travesseiro no meio das pernas, travesseiro na cabeça, dois travesseiros, travesseiros no chão. Lençol na cabeça, lençol nos olhos, muito calor, pouco frio, chão. Dois ou três minutos depois, levanta-se. Sabia que banho morno ajudava a dormir. Foi ao banheiro, despiu-se lentamente, sentou no aparelho por uns dois ou três minutos, entrou no boxe e tomou um longo banho de dose ou treze minutos. Preferiu não secar o corpo, vestiu-se ainda molhado e voltou ao quarto. O mal estar podia não ter passado mais o calor sim. Novamente deitou-se. Olhava para baixo, para cima, para o outro, para um lado, virava de cabeça a ponta, virava de ponta cabeça. Travesseiro na cabeça, travesseiro no meio das pernas, dois travesseiros, travesseiros no chão. Lençol na cabeça, lençol nos olhos, pouco calor, muito frio, chão. Lembrou-se que uma vez, depois de ter viajado durante varias horas de carro, havia tomado Dramin, um remédio que normalmente resolvei o problema de enjou, porém nele dava um sono enorme. Foi até cozinha pegou a caixa de remédio e tomou uns quatro ou seis Dramins. Voltou ao quarto e ficou deitado, como se estivesse a beira d’água esperando o riacho parar de correr. Dois três. Parou.
Sabe, a realidade é assim, nua e crua, posso dizer que mais crua do que nua, pois ela vem em um prato de prata, com o sangue ainda escorrendo pelas bordas da bandeja, além de o másculo continuar pulsando vermelho e cheirando a frigorífico. Porque não dizer que ela também pode estar mais nua do que crua? Tão nua e amostra, que fechamos os olhos, rezando, para quando os abrir ela tenha ido embora ou, ao menos, se metamorfizado em algo mais bonito para se ver. Há sentimentos que nascem mesmo sem terem nomes, ou seus nomes são uma mistura de vários outros, formando neologismos que por não terem um sentido coletivo, acabem só tendo sentido para nos mesmos e, dessa forma, nos fazendo voltar ou ponto zero, tendo em vista, a impossibilidade de haver comunicação. Quem sabe, se falássemos alemão teríamos a oportunidade de conseguir dizer o que sentimos, ou talvez deva ser apenas só mais uma baboseira da filosofia. Quando se sabe que a dor de morrer nem sempre é a mesma de deixar viver, e se têm a consciência de que a realidade se apresenta nua e crua, e em proporções desproporcionais, tornando o ato de respirar já não tão comum, fazendo o sentir já não só ter sensações e o andar não só ser ir para frente, e assim, tudo vai ficando em rede, misturado em pensamentos e compreensões, que nem sempre lhe deixa em um eixo de equilíbrio confortável. E sem a menor duvida, nasce, cresce e morrer, se compreendendo em ciclos que podem refazer-se em si mesmos, sabendo que a cinza é o adubo do começo, e o começo nem sempre estar no sentido do ciclo passado.
Talvez seja durante a infância que temos os melhores momentos, pois tudo nos é bastante claro, e a certeza do pouco já e suficiente para ir ao colégio, comer, dormir, brincar, fazendo e refazendo esse ciclo todos os dias, repetidas vezes, por anos, sem precisar nem saber onde tudo vai dar. É durando o processo de amadurecimento, que raramente acontecesse de forma lenta e gradual, como normalmente é narrado por professores, é que descobrimos a realidade crua e nua. São em momentos específicos, e não graduais, que somos visitados, sem aviso prévio, pela vida. Ela vem e nos dar duas bofetadas na cara e nos faz crescer aos pontapés. E assim seguimos com medo e a passos maiores que as pernas, porém seguimos, fazendo ciclos e mais ciclos, alguns viciosos, outros libertários. E assim, em saltos, descobrindo como a vida é nua e crua. Mas é assim que ela é.