sábado, 9 de julho de 2011

Durante um sonho e outro

Durante as noites tontas, ela vem me visitar.
Percorrem e marcam seus caminhos, por natureza.
Seus nascimentos são culpa de um sofrer de amor.
Amor este, que não entende o que tem.

Ao passarem pela face, deixam o cheiro da vontade
Vontade boba de querer o que longe se encontra.
Não importo, eu as guardo com carinho do sofrer.
Entre mão ou lenços a protejo.

Bobo, quem não percebe que elas são verdadeiras.
Cultivá-las em alegria seria melhor, pois,
dessa forma, elas vão um dia secar.

Peço, conserve no sentimento de origem.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Quase Amante

(Dois personagens não importam o sexo)

1- Você já vai?(silencio). A porta fica a esquerda.

2- Você não vem abrir?

1- Foi você que decidiu ir. Não estou lhe mandando embora.

2- Mas não fui eu que me troce até aqui. Por Favor, abra a porta.

1- Sabe, tem uma lenda que diz que se abrimos a porta para a pessoa que está em nossa casa, é porque queremos que ela volte a nos visitar.

2- E você não quer?

1- Não da forma que você se propõe a vim.

2- Já cansei de suas bobagens e seus gritinhos histéricos (silencio). Onde fica mesmo a porta?

1- A porta fica a esquerda.

2- OK. Tenha uma boa noite.

1- Para você também.

2- (vira-se para traz) A porta estar trancada. Por favor, venha abrir a porta.

1- Não sei onde coloquei as chaves (procurando nas roupas). Deve ter caído pelo chão, quando você tirou minha roupa.

2-Procure! Por favor.

1- Me ajude a procurar, não sei se vou me lembrar. Estávamos fazendo sexo.

2- Você estava fazendo sexo comigo.

1- Foi você que tirou minha roupa. Pelo que sei, foi você que quis.

2-Queria, mas no meio do caminho me arrependi. Cansei de saber a ordem exata dos acontecimentos. Gozei só por costume.

1-Achei as chaves. Pronto pode abrir a porta.

2- Por Favor, venha abri a porta para mim.

1- Já contei para você a historia de que quando abrimos a porta para alguém é porque queremos que essa pessoa volte para nos visitar?

2- E você não quer que eu venha lhe visitar?

1- Não da forma que você pretende.

2- Tudo bem. Além do mais, você já me contou essa historia varias vezes. Foi assim que eu vim aqui pela segunda vez, você havia aberto a porta.

1- A chave esta na sua mão já pode abri a porta.

2- E você não vai abri-la para eu sair?

1- Não!

2- OK, não precisa desses seus gritos histéricos, já disse que não gosto.

1- Desculpas.

2- As chaves.

1- Já estão em suas mãos.

2- A sim. Desculpa.

1- Pode deixar, eu abro a porta.

2- Obrigado.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Volta ao preto

Oi vizinha, senta ai. To precisando tanto conversar com alguém. As mesmas coisas de sempre. Posso lhe contar? Hoje ele tinha prometido me visitar. Acordei logo pela manhã, fui ao mercantil. Sabe ontem à noite, como eu já sabia que ele iria chegar hoje, olhei umas revistas de receitas, para procurar uma receita nova, que pudesse fazer para nós dois. Resolvi fazer um frango ao molho de laranja com cenoura e gengibre. Nem gosto muito dessas comidas diferentes, mas como sei que ele é todo metido a chique, iria fazer para agradá-lo. Compre o peito de frango maior que encontrei no mercantil, escolhi todos os ingredientes sem a menor pressa, conta até que não deu muito caro. Não havia decorado, muito bem, como fazer a receita, mas fui experimentando. O cheiro estava tão delicioso, modéstia a aparte, acho que a minha receita ficou melhor que a original. Com esse tipo de comida sofisticada, acho melhor fazer apenas um arroz branco normal, para acompanhar. Minhas mãos estavam fedendo a alho, e enquanto o arroz cozinhava, fui tomar um banho. Dava para sentir, do banheiro, o cheiro da comida. Ele iria gostar tanto. Sabe, às vezes, quando ele ta comendo minhas comidas, talvez ele nem perceba, mas fico só olhando de canto de olho para a cara dele, só para ver suas excreções de satisfação, me sinto tão bem quando sei que fiz um almoço todo especial para nós e ele gostou. Terminado o banho, passei um hidratante, e fui retirar as panelas do fogão. Ele diz que não gosta de comida muito quente, por isso, deixo tudo preparado uns vinte minutos antes dele chegar para poder ficar mais morna. Deitei no sofá que fica perto da janela da sala, fiquei só espiando para ver o momento exato que ele chegasse e eu correria para abrir o portão. Já eram doze e meia, mas ainda estava calma, pois é normal, ônibus podia ter atrasado ou o engarrafamento podia estar muito grande. Dez para uma e ele não havia chegado ainda, comecei a ficar sem paciência. Todo barulho que ouvia, lá fora, corria para o portão, porém era o cara que passava na rua, ou então uma mulher querendo vender biscoito "Não senhora eu não quero". Já era quase uma e meia e ele ainda não havia chegado. Não, essa não é a primeira vez que ele fura comigo, eu até já pressentia que isso podia acontecer, mas antes, ao menos, ele me ligava para cancelar, nem que fosse na hora, mas ligava. Dessa vez nem isso. Já eram quinze para as duas, cansada de esperar, fui até a cozinha. A comida já estava mais que fria, não tive a menor vontade de comer. Quando se faz uma comida para dois, ela só tem sabor se for a dois, comer sozinha não vai ter nem sabor. Aquela comida me embrulhava tanto o estomago, resolvi jogar no lixo, sei que tem gente passando fome, mas eles que entendam meu momento. Fiz um ovo com pão só para não ficar sem comer, e fui dormir. Você precisa ir? Não vizinha tudo bem, brigada por me escutar. Não, estou bem, e se não tiver, uma hora fica.

sábado, 28 de maio de 2011

Encontro casuais

Ele sabia muito bem como me machucar. Parecia que se divertia as minhas custas, normalmente me doeria um pouco afirmar isso para mim, mas como sei que isso vai ficar só entre nos estou disposta a continuar. Estávamos juntos há um pouco mais que alguns meses. Datas nunca foram meu forte. Quando começamos, ele sempre tinha palavras na manga para me impressionar. Tenho certeza que posso lhe confirmar que foi ele o primeiro a dizer eu te amo, meio que entre os dentes, mas foi ele sim. Mas agora, nos últimos dias, eu mal conseguia arrancar uma palavra de carinho da boca dele. Olha que eu não sou uma mulher difícil de conseguir isso dos homens não viu. Sou boa de cama, carinhosa e cuidadosa. E fora que... Não, não vem ao caso. Mais do que presente caros, perfumes importados, jóias, nos mulheres, gostamos é de carinho. Sabe às vezes um bilhete, nem que tenha sido escrito de ultima hora, e mesmo que tenha a escrita errada e a letra feia, guardamos com todo carinho do mundo no guarda-roupa. Quando não, só dormir junto, feito conchinha, sentido a respiração e o batimento do coração um do outro, já nos são o bastante. Acho até que é ousadia minha disser que só mulher gosta disso, todo mundo gosta, mesmo que não queria dizer. Estou confiando muito, falando de mais. Tudo bem, você é mesmo um estranho para mim, e sei que daqui a uns quinze minutos, isso sendo exagerada, você vai ter esquecido as minhas confidências, mas saiba que para mim isso esta sendo um alivio. As pessoas hoje estão assim mesmo, como nos dois, só se preocupam com elas mesmas. Por exemplo, você só esta ouvindo isso tudo, ou porque você não esta ocupado no momento, ou talvez para se sentir melhor sabendo que existem pessoas, que pelo menos nesse momento estão pior que você. Eu to falando isso tudo, porque sei que você não esta nem ai para sair contando minha historia mesmo, além de ser a única forma de eu poder me sentir um pouco aliviada. Talvez seja por isso que os relacionamentos não tão indo mais pra frente. Não por mim nem por você, claro, mas por todos. To desviando muito do assunto que eu queria falar, que era dele, mas tudo bem, isso pode se um bom sinal, pois até que enfim estou me esquecendo dele, ao menos em uma conversa. Acho que já lhe prendi de mais. Qual quer dia desses, se nos cruzarmos na rua e você se lembrar de mim, nos falamos. E se perguntar se estou bem, vou virar e lhe dizer que sim, como todo mundo faz.

domingo, 15 de maio de 2011

Um lugar que só nós conhecemos

Todos os dias pela manha, ele acordava, se vestia o mais rápido possível, quase não tomava o café da manha e pegava o caminho da escola. Fazia tudo bem rápido, pois sempre se atrasava para o inicio da aula, não por acordar tarde, mas por ter algo que sempre lhe deixava perdido no caminho. Eram exatos cinco minutos de caminhada, para chegar à frente da loja de brinquedos. A loja em si não tinha nenhuma beleza especial. Era apenas mais uma casa antiga, que havia sido comprada por um empresário, que não tinha noção de preservação historia e, por isso, destruiu toda a fachada da casa, colocando no lugar uma placa enorme. O que havia lhe prendido atenção nos últimos quatro ou cinco meses, sendo assim o motivo do atraso, era um pequeno castelo de porcelanato. Lembrava-se muito bem da primeira vez que o viu. Era um dia comum, que se tornou especial, pelo mero motivo da olha para dentro da loja de brinquedos, e sem a menor pretensão perceber a presença de um castelo bem pequeno, porém que brilhava muito, ou, ao menos, o bastante para fazê-lo para e ficar. Depois daquele dia, começou a deixar de lanchar na escola, de comprar bombons e até de sair com os amigos, só para poder juntar dinheiro. Passou quase três meses nesse jejum, e quando juntou o dinheiro que achou ser suficiente, saiu mais cedo de casa, foi correndo até a porta da loja, e lá permaneceu por quase duas horas. Foi então que um homem alto, magro de cabelos curtos abriu a loja. Entrou desesperadamente, e foi logo pegando o castelinho na mão, ele era pequeno, simples, porém era o que ele mais queria. Levou o castelo até o caixa, tirou toda a moeda do bolso e entregou. Não pensou duas vezes e já foi saindo da loja, porém uma mão grande e fria, o segurou pelo braço. O dono da mão foi logo dizendo, em alto e bom tom, que o valor era insuficiente para a compra, e que ele não poderia levá-lo agora. O menino, tristemente, entrega o seu castelo e sai da loja. No momento que saiu da loja, seu olhar era triste e despretensioso. Nesse dia resolveu até volta para casa, justificando para os pais, que estava com muita dor de cabeça. No outro dia acordou, porém dessa vez não tinha motivo para correr. Saiu de casa lentamente e mais uma vez foi seguindo o caminho da escola. Ao passar em frente à loja, viu novamente o castelo na vitrine, parou por alguns minutos. Novamente sentiu o peso de uma mão na suas costas, quando se virou, pode perceber que era o mesmo homem do dia anterior. O homem entre sorrisos lhe contou que o valor que faltava para comprar o castelo não era muito, e se ele conseguisse ao menos mais algumas moedas, ele podia até da um desconto. O menino animou-se, tão rapidamente, como se tivesse recebido uma injeção de energia. Ali, no silencio do pensamento, olhou para o seu castelinho e pensou que se ele já havia sido dele, mesmo que por alguns minutos, ele iria se esforçar para poder novamente o conquistar, mesmo que isso levasse um tempo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Deux ou trois

Não adiantava fechar os olhos e fingir que o sono iria chegar nos próximos dois minutos, ou no máximo três, como costumeiramente ocorria. Desde que se entendia por gente, o sono era super pesado e rapidamente vinha, porém no tempo presente, o costumeiro seria descartado. Olhava para cima, para um lado, para o outro, virava de ponta cabeça, de cabeça à ponta. Travesseiro no meio das pernas, travesseiro na cabeça, dois travesseiros, travesseiros no chão. Lençol na cabeça, lençol nos olhos, calor, frio, chão. O incomodo interior, não se limitava a ficar só no interior, mas se propagava. Será que no amanhã, quando a noite já fosse parte do ontem, e o futuro já estivesse, ao vivo e a cores, iria se sentir melhor? Às vezes, pensava que havia feito o melhor, e durante dois ou três minutos fechava os olhos, tendo a certeza que iria conseguir cai no sono, porém bastava uma leve brisa de duvida, e pronto, o furacão estava instaurado, e seria necessário mais vinte ou trinta minutos, para novamente se enganar e, dessa forma, conseguir mais um tempo de certeza. Pegou o telefone, olhou o horário. Já passava dois minutos das três da manha. Não adiantava nem ligar, pois o horário já era muito avançado. E mesmo assim o que iria falar? Tudo havia ficado combina. Não havia mais espaços para duvidas, nem desfeitos. Quem sabe em outro tempo, em um tempo em que a delicadeza já tivesse se instaurado novamente. Mas no tempo presente, o melhor era recolher todo o sentimento.

Odiava leite quente, mas como as pessoas falavam que era bom para insônia, resolveu fazer uma xícara, pois sabia que o único problema que poderia resolver naquela noite era a insônia. Foi até a cozinha, pegou o leite na geladeira e colocou para ferver. Como uma forma de esvaziamento do pensar, ficou olhando atentamente o leite. O branco. Depois de uns dois ou três minutos, o leite começou a borbulhar. Pegou a xícara e colocou o leite ainda fervendo dentro. Voltando ao quarto sentou-se na cama. O leite já estava morno, talvez fosse nessa temperatura que ele ajudasse o sono a chegar mais rápido. Bebeu, quase queimando a língua, mas bebeu. Deitou-se. Olhava para cima, para um lado, para o outro, virava de ponta cabeça, de cabeça a ponta. Travesseiro no meio das pernas, travesseiro na cabeça, dois travesseiros, travesseiros no chão. Lençol na cabeça, lençol nos olhos, muito calor, pouco frio, chão. Dois ou três minutos depois, levanta-se. Sabia que banho morno ajudava a dormir. Foi ao banheiro, despiu-se lentamente, sentou no aparelho por uns dois ou três minutos, entrou no boxe e tomou um longo banho de dose ou treze minutos. Preferiu não secar o corpo, vestiu-se ainda molhado e voltou ao quarto. O mal estar podia não ter passado mais o calor sim. Novamente deitou-se. Olhava para baixo, para cima, para o outro, para um lado, virava de cabeça a ponta, virava de ponta cabeça. Travesseiro na cabeça, travesseiro no meio das pernas, dois travesseiros, travesseiros no chão. Lençol na cabeça, lençol nos olhos, pouco calor, muito frio, chão. Lembrou-se que uma vez, depois de ter viajado durante varias horas de carro, havia tomado Dramin, um remédio que normalmente resolvei o problema de enjou, porém nele dava um sono enorme. Foi até cozinha pegou a caixa de remédio e tomou uns quatro ou seis Dramins. Voltou ao quarto e ficou deitado, como se estivesse a beira d’água esperando o riacho parar de correr. Dois três. Parou.



sexta-feira, 18 de março de 2011

Gravidade

Sabe, a realidade é assim, nua e crua, posso dizer que mais crua do que nua, pois ela vem em um prato de prata, com o sangue ainda escorrendo pelas bordas da bandeja, além de o másculo continuar pulsando vermelho e cheirando a frigorífico. Porque não dizer que ela também pode estar mais nua do que crua? Tão nua e amostra, que fechamos os olhos, rezando, para quando os abrir ela tenha ido embora ou, ao menos, se metamorfizado em algo mais bonito para se ver. Há sentimentos que nascem mesmo sem terem nomes, ou seus nomes são uma mistura de vários outros, formando neologismos que por não terem um sentido coletivo, acabem só tendo sentido para nos mesmos e, dessa forma, nos fazendo voltar ou ponto zero, tendo em vista, a impossibilidade de haver comunicação. Quem sabe, se falássemos alemão teríamos a oportunidade de conseguir dizer o que sentimos, ou talvez deva ser apenas só mais uma baboseira da filosofia. Quando se sabe que a dor de morrer nem sempre é a mesma de deixar viver, e se têm a consciência de que a realidade se apresenta nua e crua, e em proporções desproporcionais, tornando o ato de respirar já não tão comum, fazendo o sentir já não só ter sensações e o andar não só ser ir para frente, e assim, tudo vai ficando em rede, misturado em pensamentos e compreensões, que nem sempre lhe deixa em um eixo de equilíbrio confortável. E sem a menor duvida, nasce, cresce e morrer, se compreendendo em ciclos que podem refazer-se em si mesmos, sabendo que a cinza é o adubo do começo, e o começo nem sempre estar no sentido do ciclo passado.

Talvez seja durante a infância que temos os melhores momentos, pois tudo nos é bastante claro, e a certeza do pouco já e suficiente para ir ao colégio, comer, dormir, brincar, fazendo e refazendo esse ciclo todos os dias, repetidas vezes, por anos, sem precisar nem saber onde tudo vai dar. É durando o processo de amadurecimento, que raramente acontecesse de forma lenta e gradual, como normalmente é narrado por professores, é que descobrimos a realidade crua e nua. São em momentos específicos, e não graduais, que somos visitados, sem aviso prévio, pela vida. Ela vem e nos dar duas bofetadas na cara e nos faz crescer aos pontapés. E assim seguimos com medo e a passos maiores que as pernas, porém seguimos, fazendo ciclos e mais ciclos, alguns viciosos, outros libertários. E assim, em saltos, descobrindo como a vida é nua e crua. Mas é assim que ela é.